Uma novela americana

Atentos ao

0 44 0

03/06/2017 POR: Guide

“Let´s make America great again, together”. Esta é a mensagem de Donald J. Trump, o 45º presidente dos EUA. No site da Casa Branca¹, tal slogan aparece em vermelho, logo de cara, com letras garrafais. Numa tradução livre para o português, é uma espécie de: “Vamos fazer a América grande novamente, juntos”. Será?

Ou melhor: como?

Poderíamos dizer que o bordão, embora contenha o desejo de mais prosperidade e crescimento (o desejo de ser “grande”), contém claro descontentamento com o presente. Até aqui, nada novo. É, afinal, uma nova administração, um novo partido no poder, uma renovação (saudável em toda democracia).

O que talvez preocupe na frase é o olhar para o passado (o “again” nos remete a isso). Os mais críticos dirão que Trump quer que o país volte a ser o que era, numa espécie de retrocesso em vários aspectos. Se desde o pós-guerra o mundo vinha numa toada de maior globalização, integração e acordos multilaterais, o voltar “atrás” de Trump implicaria numa tentativa de reverter tal tendência?

A verdade é que os EUA já não é o que eram. Num passado não tão distante, o país era um líder em termos econômicos, e sem alguém que ameaçasse a sua liderança. Registre-se: pouco antes da década de 1950, os EUA representavam mais de 25% do PIB mundial. Desde então, dois fenômenos: este número caiu, e a China foi ganhando espaço. Os asiáticos, aliás, já estão mais próximos dos 20%, e a tendência é que este número avance ainda mais nos próximos anos – algo que pode mexer, e muito, com a tal “ordem” internacional.

Observação: não é por acaso que a China – e outros emergentes – vem exigindo maior representatividade em organizações como o FMI e Banco Mundial. Embora num início fosse proporcional ao poder econômico, a defasagem foi crescendo, e ainda não foi ajustada.

Mais um retrato do passado americano: considerando² o período entre 1940-2016, o PIB cresceu, em média, 3,7%. Para fins de comparação: no ano passado, o país cresceu 1,9%. Assim, a média de crescimento dos últimos 10 anos está em 1,4%. De olho em tal passado, não é por acaso que Trump tenha prometido um crescimento de PIB mais forte, e próximo de 3,5-4,0% nos próximos anos.

Mas como acelerar a economia dos EUA? As promessas de Trump são factíveis? Embora já tenha sido viável no passado, este crescimento de 3,5-4,0% se deu em tempos completamente diferentes: não só a “base” era outra – manter taxas de crescimento altas tende a ficar mais difícil a medida que o país se torna mais desenvolvido³ –, mas houve, nos últimos anos, menor avanço em termos de produtividade4.

“Como crescer hoje a taxas do passado, sem provocar desequilíbrios para gerações futuras?”, perguntam-se os mais céticos. Ou: “como acelerar o crescimento se não há ganhos de produtividade e a população está envelhecendo?”. Voltamos à dúvida do “como”.

Se as projeções para o médio e longo prazo perdem em qualidade, para o curto prazo há mais “certezas”. Trump irá cortar impostos e aumentar os gastos do governo. Este é o chamado “be-a-bá” daquilo que se conhece, em economia, como “política fiscal expansionista”. Em condições normais, o novo equilíbrio da economia teria um PIB e uma taxa de juros mais alta. Ou seja: isto acelerará ainda mais a economia. E no médio prazo? A dívida do governo aumentará. Mais: a redução de impostos, por incrível que pareça, beneficiará os mais ricos, aumentando a desigualdade.

Sem usar modelos econômicos, mas apenas extrapolando o comportamento recente do presidente, podemos inferir que Trump continuará com as suas intervenções “microeconômicas”. Seguirá, via Twitter, ameaçando àquelas empresas que porventura pensarem em produzir fora dos EUA, adicionado uma restrição à suas decisões mais básicas, como é a de decidir aonde produzir. Desvirtuam-se, assim, os incentivos econômicos.

Como retaliação àqueles que não se adequarem aos desejos do presidente, produtos produzidos fora do país, e que sejam exportados aos EUA, poderão ser taxados – uma forma de torná-los menos competitivos vis-a-vis os “made in USA”. Mais: também faz parte da política “America First” (“América primeiro”, em português) dar prioridade à contratação de americanos, e não imigrantes.

Aqui, em condições normais, modelos econômicos sugeririam que estas políticas, no curto prazo, tendem a aquecer o ritmo de atividade doméstica. Reforça aquilo que já havíamos afirmado. Mas a restrição comercial via tarifas, embora aumente a arrecadação de impostos do governo, elevará os preços dos produtos, e culminará na perda de eficiência da economia. Em termos técnicos, Trump criará o chamado “peso morto” – custo à sociedade, em termos de bem-estar, que se deve à intervenção do governo.

Uma observação importante: é evidente que algumas empresas são beneficiadas quando há mais restrições ao comércio, mas estamos analisando, aqui, o custo para a sociedade como um todo. Dani Rodrik, professor de Harvard, escreveu recentemente um interessante texto sobre isto. Rodrik se pergunta: “teriam os economistas a culpa pela reação ‘anti-globalização’, que nos dias de hoje tem crescido?” É provável que sim. Afinal, faltou clareza na discussão. Quando uma economia se abre ao comércio internacional, há “vencedores” e “perdedores”, ainda que a sociedade, no agregado, saia ganhando. Ao invés de decidir fechar a economia ao resto do mundo, o governo, neste caso, poderia tentar minimizar os danos aos prejudicados, diminuindo a diferença de efeitos entre estes grupos.

Em suma: entre as políticas de Trump, há hoje maior consenso no que diz respeito à política fiscal mais ativa, porém, muito menos com relação às intervenções microeconômicas. Independente da nossa opinião, tudo nos leva a crer que veremos, nos próximos capítulos, uma economia mais aquecida, maior inflação e taxas de juros mais altas. E há “fundamentos” para continuarmos otimistas com as empresas americanas. As bolsas, que reagiram em alta à eleição de Trump, devem manter o bom momento, em nossa opinião.

Mas para quem está pensando nos mercados, vale a ressalva: num contexto de Trump na Casa Branca, a volatilidade pode aumentar de forma rápida. Ou seja: correções e ajustes de preços de curto prazo podem acontecer, não só por conta do rali recente das ações, mas também por conta da própria característica impulsiva do presidente. Espere tempos mais volatilidade.

Nova ressalva: o jeitão intervencionista de Trump também tende a trazer maior “dispersão” de resultados. Ou seja, as perspectivas para os diferentes setores não são homogêneas. Analistas têm concentrado as suas fichas no setor financeiro, que deve passar por um movimento de menor regulação e que se beneficiará de juros mais altos. Do lado negativo, estão setores como os de tecnologia e saúde, que refletem a retaliação ao fluxo de imigrantes e/ou opiniões específicas já manifestadas pelo próprio presidente.

Sobre a menor regulação financeira: num primeiro momento, as regras mais flexíveis – na contramão daquilo que o governo Obama adotou após a Grande Recessão – devem estimular a atividade econômica, empréstimos, e financiamento de projetos. Trump quer desmanchar as regras que fizeram parte da Reforma Dodd-Frank, embora precise do apoio do Congresso para tal. Se no curto prazo o impacto tende a ser positivo, no médio prazo, novo alerta: aumentam certos riscos de exageros. Basta lembrar as ideias do economista Hyman P. Minsky, que costuma ser citado por suas críticas às regulações mais brandas.

Mas nem tudo será mais “brando”. Como dissemos anteriormente, as taxas de juros americanas devem subir muito em breve. Dito de outra forma: concordamos com aqueles que dizem que a “política monetária dos EUA tende a ser mais contracionista, mais apertada”. Aliás, o próprio Fed tem afirmado que está muito próximo de seus objetivos de longo prazo (inflação em 2% e “pleno emprego”), algo que deixaria de exigir taxas de juros muito baixas. Assim, prevê que as taxas, hoje em 0,50-0,75% ao ano, possam chegar a 1,25-1,50% até o final de 2017. No “longo prazo”, considera-se que os juros de equilíbrio seriam de 3,0%. Ou seja: haveria ainda mais espaço para mais elevações num futuro não muito distante.

Embora tenhamos bons argumentos e confiança naquilo que traçamos aqui, existem riscos ao nosso cenário-base. Consideramos aqui que o intervencionismo do novo governo não contrabalanceará, muito menos eliminará, os efeitos positivos de mais estímulos fiscais neste primeiro momento. E que o risco geopolítico continuará controlado, e não haverá um abruto aumento de incertezas. Continuaremos atentos ao cenário como um todo, dando especial atenção aos comentários diários de até 140 caracteres, daquele que tem sido chamado de “Hemingway do Twitter”. Esta é a novela americana, que apenas começou. Aguardamos, com ansiedade, os próximos capítulos.

Observações:
1Início de fevereiro de 2017, poucos dias após a sua posse, dia 20 de janeiro;
2A série para o PIB aqui utilizada é a média móvel de 10 anos, de forma a minimizar a volatilidade da série;
3Economistas costumam citar o efeito “catch-up” que, dito de outra forma, prevê que economias menos desenvolvidas (renda per capita mais baixa) possam caminhar em direção às mais desenvolvidas, através da aquisição de novas tecnologias, por exemplo;
4Este aqui é um tema controverso, e não há consenso sobre o ritmo de queda da produtividade dos EUA, e nem os fatores que estão por trás deste movimento. Há quem defenda que há problemas e dificuldade de medições, embora economistas renomados como Robert J. Gordon tenham visões mais pessimistas sobre o assunto. De qualquer forma, vale a pena destacar: segundo cálculos do próprio Fed, entre 1949-2005 a produtividade média do americano cresceu a 2,5% ao ano, enquanto no período de 2006-2015 esta cresceu a 1,2%, apenas.


IGNACIO CRESPO REY
Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo Insper, São Paulo. Foi professor assistente do mestrado profissional em Economia do Insper, ministrando aulas sobre política monetária. Desde 2013, é economista da Guide Investimentos, responsável pelas análises de economia nacional e internacional.

0 44 0

Cadastre-se e receba nossos conteúdos exclusivos



Comentários (0)

Ordenar por:

Nenhum comentário

Você pode ser o primeiro a comentar!

Bitnami